domingo, 2 de agosto de 2015









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PARANAPUÃ - O NINHO DO COLIBRI.




MUITA GENTE TEM ME PERGUNTADO: POR QUE “O NINHO DO COLIBRI”?

                                            QUANDO ME PROPUS A ESCREVER SOBRE O NINHO DA MINHA INFÂNCIA, NÃO ENCONTREI OUTRO CODINOME MAIS SIGNIFICATIVO PARA EXPRIMIR MEU ENCANTO PELA MINHA TERRA E PELA SUA GENTE.
                                            O NINHO DO BEIJA FLOR É FEITO COM TODO O ESMERO E PERFEIÇÃO DIGNOS DA NATUREZA, QUE COM OS MESMOS ATRIBUTOS CONSTROE O NOSSO RINCÃO.
                                            O COLIBRI SE UTILIZA APENAS DE MATERIAL NOBRE E DELICADO NA CONFECÇÃO DO NINHO. LÃ DE CARNEIRO, PELOS DE ANIMAIS, PEQUENOS CHUMAÇOS DE ALGODÃOE RAMINHOS SECOS MUITO FLEXÍVEIS. TUDO ISSO COSTURADO COM (PASMEM) TEIA DE ARANHA, TORNANDO O REDUTO DOS OVOS E FUTURA MORADA DOS FILHOTES UM LOCAL MUITO AQUECIDO, SEGURO E IMPERMEÁVEL.
                                             NUMA ALUSÃO MUITO PERTINENTE, ACHO QUE ASSIM DEVE SER DESCRITO O NINHO DE NOSSA INFÂNCIA, ONDE FOMOS “CHOCADOS”, ALIMENTADOS NA BOCA, E DEPOIS DE CRESCIDOS PUDEMOS ALÇAR O ESPERADO VÔO, COMO O COLIBRI, NUM INFINITO VAI E VEM À PROCURA DAS FLORES QUE O DESTINO NOS OFERECE.

VALTERCAFFER


E LEIA ABAIXO PEQUENAS HISTÓRIAS   SOBRE A NOSSA CIDADE E NOSSA GENTE.






                                      Para os fretes mais simples eram solicitadas a carroça e a mula do Antonio Castilheri, que ia e vinha a todos os cantos do local levando as cargas mais inusitadas. Por vezes uma mudança daqui pra ali, outras vezes, galinhas, porcos, sacos de arroz, milho, madeira, material de construção, móveis, e tudo o quanto pudesse ser levado sobre uma carroça. Porem dentre tudo aquilo que era transportado sobre essa carroça o mais interessante era o transporte de carne do gado abatido no matadouro até os açougues locais. Por volta das quatro ou cinco da tarde lá ia o Castilheri rumo ao matadouro onde o aguardavam o açougueiro e o responsável pela morte do animal. Amarravam a rês, abatiam-na, depois com uma manivela a içavam com a cabeça para baixo enquanto retiravam o couro e as vísceras, depois de pelado e limpo o animal era cortado ao meio do rabo até a cabeça, então a        carroça era colocada de ré sob as partes que eram descidas sobre ela. Uma vez acomodada a carne sobre a carroça, o carroceiro que participara do abate ia cuidar de lavar as mãos, os braços e rosto sujos de sangue. Enquanto isso a mula não esperava por ele. Sozinha punha-se a caminhar para fora do matadouro, depois ganhava a estrada boiadeira e finalmente a avenida poeirenta. Por fim parava diante do açougue para a entrega. Às vezes após um longo tempo subia pela a avenida o Castilheri para descarregar o animal morto, que era desossado e colocado à venda no açougue.
                                      Depois vieram o Faíco e outros carroceiros, mas o Castilheri foi o precursor nesse meio de transporte.

                                      (TEXTO EXTRAIDO DE PARANAPUÃ - O NINHO DO COLIBRI
                                       CLIQUE NA IMAGEM ACIMA E LEIA A HISTÓRIA COMPLETA).







                              MIGUELÃO E AS ABELHAS





                                De certa feita estávamos absorvidos em nossas atividades na chácara, quando o Miguelão procurou por mim, me chamando baixinho para um canto, como se   fosse me contar um segredo.
                                 -Albertinho, bem cá, bamo tirá  mel de abêia. Descobri um enxame de abêia, num tronco ai pertinho. Olha Albertinho,  cheinho de mel. Bamo tirá.
                                 Para mim esse era um convite irrecusável, mas fiquei surpreso.
                                 -Mas tio Migué, e o senhor sabe tirar  mel de abelhas?
                                 -Ah! Ah! Ah! Ah!, uma longa gargalhada. –Se eu sei? -Se eu sei? -Claro que sei, já tirei muito mel. É fácil, vamos?
                                -Bom, então vamos.
                                A primeira providência foi conhecermos bem o local, como dois  do mel, como dois experts nos assuntos da apicultura. O enxame estava no meio de uma pequena mata, ali bem perto. Havia um grande tronco  caído no meio das árvores, que preso nas ramagens e cipós, se erguia a cerca de um metro do chão. O lado de baixo do tronco era de formato favorável à morada de abelhas, já que era parecido com um longo cocho, e ali nessa cavidade as abelhas se agasalharam, certamente há muito tempo. Era um enxame magnífico. Uma colméia ímpar, com cerca de vinte favos,bem grandes, alinhados lado a lado, onde de vez em quando em meio à efervescência das abelhas aparecia o me amarelinho, quase se desprendendo dos favos...
                           O Miguelão diante dessa visão era só empolgação, e não parava de cochichar em meu ouvido:
                           -Aí tem mel prá mais de “binte litro”. Prá mais de binte litro! E exibia o largo sorriso de poucos dentes, como quem ganha na loteria, como quem vai por a mão num tesouro.
                          Voltamos para a casa e iniciamos os preparativos. Tudo tinha que ser cuidadosamente planejado, e agíamos como dois profissionais da apicultura. Primeiro alguns tuchos de pano tirados de um vestido velho de minha mãe, que ao serem queimados serviriam para “acalmar” as abelhas, conforme me explicava com detalhes o Miguelão.Uma boa faca, comprida e com fino corte para decepar os favos bem junto à base, sem ofender a uma abelha que fosse, e muita erva cidreira embebida em água açucarada , que também tinha por finalidade desviar para ali a atenção da abelhada.
                           Tudo preparado aguardamos o entardecer, segundo o meu “mestre” a hora exata para extrair o mel, e rumamos para a pequena mata, que ocultava tão inestimável tesouro e tão valioso segredo. O miguelão seguia à frente, semi abaixado, faca numa mão, um tucho de pano na outra, armado para a batalha, cigarro de palha na boca e sempre meio abaixado se virava a cada instante para me pedir absoluto silêncio. –Psiu, psiu, psiu, se fizer barulho vai espantar as abelhas, psiu, psiu, psiu; e eu , no mais absoluto silêncio, aguardando as ordens, camisa de manga comprida para o caso de alguma abelha mais afoita vir para cima de mim, chapéu de palha na cabeça, pelo mesmo motivo, e um enorme balde de latão em cada mão. Então o Miguelão deu início à operação de retirada do mel. Se pos de joelhos, bem ao lado do enxame de abelhas e acendeu o tucho que trazia à mão embebido em óleo queimado. Deixou que queimasse um pouco e depois apagou, provocando muita fumaça, depois deixou esse tucho fumascento no chão, bem embaixo dos favos e da colméia inteira, que agora se agitava em estado de alerta. Eu a uma distância de cinco ou seis metros observava admirado a habilidade do tio Migué com as abelhas. Quem diria; logo ele, o Miguelão, um expert no trato com as abelhas. Um exímio apicultor. E que calma. Que calma! Um homem tão estabanado, que todos conheciam por ser  inepto em tudo quanto se propunha a fazer, agora no trato com as abelhas era meticuloso, desde o preparo da operação, como agora ao lidar diretamente com o enxame em efervescência.
                                   Enquanto isso o tucho de panos colocado ao chão, queimava junto com as folhas secas enchendo cada vez mais o ambiente de fumaça.
                                   Tirou da boca o cigarro de palha, que já se apagara e calmamente o reacendeu, aspirou bem fundo e deu duas baforadas fumacentas bem longas  na direção das abelhas. Nessa hora olhou novamente para mim, que observava de olhos arregalados, abriu um grande sorriso, como quem diz: -É agora! Levou a faca em direção ao primeiro favo. Foi como um choque elétrico na colméia. As abelhas pareceram obedecer a um comando único. Então em massa, literalmente todas deixaram a colméia e o tronco, e  alucinadas para cima do Miguelão. Eu estava a alguns metros de distância quando tomei fé da situação, joguei os baldes para o chão, cheios de erva cidreira com água doce e tuchos de panos velhos, e saí pala mata afora na maior disparada, fazendo valer a minha condição de menino leve e ágil, enquanto  de mim vinha um verdadeiro estouro de boiada, um tropel sem precedentes, como se um touro acuado e enraivecido viesse rompendo pela mata afora..  Era o pobre do Miguelão que vinha gritando como um louco, tropeçando pelos troncos  caídos e as abelhas como kamikazes voando sobre ele, que tropeçava, caia e se levantava depressa; se enroscava nos cipós, arrebentava, corria, corria, corria. Até que nos vimos fora da mata.
                            -Ai, ai, ai, ai, ai, socorro, pelo amor de Deus, socorro ai, ai, ai, ai, ai. Albertinho me socorre. Me socorre pelo amor de “Diós”. Me socorre. Levei mais de tres mil picadas. Me socorre. Corri para junto dele e ajudava a “descolar” as abelhas por debaixo de suas roupas, por todos os lados, desde as meias dos pés até o último fio de cabelo, tudo era abelha. E abelha furiosa. O Miguelão gritava cada vez mais, e a essa altura minha mãe já ouvira a gritaria e vinha correndo com um litro de álcool à mão em socorro das vítimas. (Apesar de termos feito tudo em segredo, minha mãe percebera qualquer movimento estranho por ali, e já se precavera para o caso de algum acidente). Eu havia  saído quase ileso da mata, apenas com  alguns arranhões e umas poucas picadas de    abelhas, mas o pobre Miguelão... Ai meu Deus. Coitado!
                                             Fora severamente castigado, e enquanto minha mãe lhe prestava os primeiros socorros espalhando álcool pelo seu pescoço, ombros e costas, ele era só gritaria: -Ai, ai, ai, aia, ai.
                                Não sei se essas abelhas foram “domesticadas” depois por alguém, mas uma coisa é certa; o Miguelão nunca mais colocou os pés naquele pedacinho de mato.








                                            DONA MARIA BAIANA
                                            DO ARRAIAL DOS CABRITOS



                                            Era uma época em que não existia asfalto entre Paranapuã e nenhuma outra cidade vizinha; e Jales
era o ponto de destino de quase todas as pessoas que saiam dali com qualquer finalidade. Nessa época nos dias de semana se deparava com gente de Paranapuã em cada esquina da cidade vizinha. Mas por incrível que pareça, se observarmos o mapa da nossa cidade e seus limites nos defrontamos com o paradoxo. Jales tem a menor fronteira entre todas as cidades que limitam o território com Paranapuã. É aquele bico onde tem a ponte do Córrego das Araras no Arraial dos Cabritos. Dali para baixo o limite é com Urânia, e logo acima o Araras vai para as bandas do Bairro da Sofia, e nos limitamos com Dolcinópolis,
                                          Nessa época o trânsito entre as duas cidades era todo feito via Arraial dos Cabritos, e ali, pouco antes da ponte (que ainda era de madeira), havia uma venda onde o ônibus fazia uma pequena parada.
                                          Nessa breve parada geralmente embarcava uma passageira inusitada, a Dona Maria Baiana. Para os mais jovens que não a conheceram vale lembrar que a Dona Maria era mãe do Chiquinho da Ambulância, amigo de todos na pequena localidade e uma imagem da bondade em pessoa. Sempre disposto, prestativo, pronto para prestar socorro a quem necessitasse de ajuda a qualquer momento; até que a fatalidade o levou do nosso meio. Mãe também do Edinho do Ginásio, desde os tempos em que deixei a vida ginasial, grande apreciador das nossas modas de viola, bom violeiro e divulgador de nossa melhor expressão de cultura popular.
                                          Mas em termos de popularidade a Dona Maria era imbatível, e deixava os dois filhos (e os demais que viviam com ela no Arraial dos Cabritos), “na poeira”. Quando entrava no ônibus, o ambiente às vezes tenso e silencioso da viagem se convertia numa festa. Todos a conheciam com sua irreverência e muita conversa. Do motorista ao passageiro do último banco dirigia palavras alegres, pequenas piadas e anedotas, depois ria muito junto com os passageiros já bastante descontraídos.
                                          À tardinha na viagem de volta, lá estava a Dona Maria no trevo da saída com as sacolas das compras e o inseparável guarda-chuva. Raramente sentava, mesmo havendo muito banco vazio. Ficava pelo corredor, falando com todos, quase sempre fazendo pilhérias, e raras vezes enredando uma conversa séria. Então reclamava da falta de chuva, da poeira, dos buracos na estrada, e do trabalho que davam os bêbados na venda. Dona Maria Baiana era moradora das mais antigas da cidade, e conhecia o povo todo. Muita gente por ali eram seus afilhados, e muitas crianças lhe pediam a benção por consideração. Apesar de muito alegre e brincalhona era merecedora do carinho e do respeito de todos; e quando desembarcava em frente à venda deixava o ônibus mergulhado em silêncio. Como um teatro lotado depois que o ator principal se despede da platéia.   









                                           MAURICIO BEGUELINI


                                            Me surpreendi em uma viagem a Rondônia quando passei por um posto da Polícia Rodoviária Federal que fica entre Pontes e Lacerda e Comodoro em Mato Grosso. A placa de bronze fixada na parede em frente ao posto tinha os dizeres: Polícia Rodoviária Federal – “Posto Maurício Beguelini”. Justa homenagem para quem morreu vivendo o sonho de ser um policial federal, e no cumprimento do inviolável dever de proteger o ser humano.
                                            Quanta lembrança dos tempos de criança... Quantos pontapés eu e o Maurício trocamos no campinho de grama em frente da máquina do Vô Marcello...
Éramos meninos da mesma rua, alunos da mesma escola e durante algum tempo, companheiros inseparáveis.
                                            Seus pais se separaram quando ele era muito criança, e ficou com o pai em Paranapuã; e ficando só em casa enquanto o pai ia ao trabalho, passávamos o dia no joguinho de bola, nas birocas ou na caça de canários e coleiras.
                                            Maurício era fanático por futebol, torcedor alucinado do Santos F.C., e treinava muito para um dia mais tarde ostentar a camisa do Paranapuã E.C.; mas o verdadeiro sonho de sua vida era ser policial. Vivia fazendo musculação com os halteres que fabricávamos com latas de tintas cheias de concreto e cabos de vassoura. Queria uma musculatura melhor, para um dia entrar para a polícia.
                                            O destino se encarregou de traçar rotas opostas para as nossas vidas. Ambos estudamos na Escola Comercial de Paranapuã e nos tornamos técnicos em contabilidade. Logo deixei Paranapuã e fui trabalhar na CEF em Sto. André. Anos depois o Maurício foi para Mato Grosso, a princípio trabalhar como contabilista no escritório de João Meira  (outro antigo morador de nossa cidade). Paralelamente lecionava no ginásio da cidade. Foram anos difíceis, sempre superados com muito trabalho e esmero.
                                            Em 1984 fui trabalhar em Vilhena / RO, e lá recebi algumas vezes a visita do Mauricio juntamente com os amigos Célio Trindade e Nilsinho Debrói, que trabalhavam com ele. Logo depois apareceu a grande chance que o meu amigo tanto esperou. Tornou-se Policial Rodoviário Federal. Quando orgulho o Maurício sentia dentro daquela farda... Sorria à toa, parecia novamente o mesmo menino do joguinho de bola... Finalmente tinha o prêmio tão almejado. Quanta dedicação, quanto respeito e quanto profissionalismo, quanta coragem...
                                           Quanta saudade de você Maurício... 










                                           UMA ROUPA QUE NÃO NOS SERVE             
                                           MAIS...



                                           Eu ainda não fui a Paranpuã após a demolição do Jardim. E não vi como ficou a nova praça das crianças, dos velhinhos e dos namorados... Ouvi pessoas tecerem alguns comentários a respeito do assunto, umas a favor, outras contra o fim da velha Praça Tiradentes, sonhada por José Ribeiro e Luiz Reina,  construída por Ulisses Costa e lapidada por José Ferreira do Carmo e outros prefeitos subseqüentes.                                     
                                          Gostaria de esclarecer aos amigos de Paranapuã que não tenho nenhuma visão ou opinião crítica a esse respeito. Tantos anos depois de Agosto de 1975, quando o trem me levou de Jales a Santo André para trabalhar na Caixa Econômica Federal, não reconheço mais aquela cidade que deixei. As ruas não são mais mesmas, as casas não são mais as mesmas e nem mesmo as pessoas são as mesmas que deixei. A única coisa que permaneceu intocável foi aquilo que trago dentro de minha lembrança. Ali tem ruas e avenidas que ainda não foram asfaltadas, tem menino correndo atrás de passarinhos pelos pastos das redondezas, tem bolinhas de vidro, joguinhos de bola, e até o velho jardim belo e florido. O que me faz feliz é ver como esse meu mundo pequenino ficou mais bonito... A cidade se adornou como uma noiva para esses novos moradores; mas para mim isso é mais ou menos indiferente. Nada ali me pertence mais, as ruas são de outras pessoas, as escolas são de outros alunos e as mocinhas têm outros namorados. É uma roupa que não me serve mais... Agora sou retrógrado e saudosista, às vezes até estúpido e desinformado. Assisto ao progresso mas não me emociono com ele. Não me importa muito quem vai ser vereador ou prefeito. Tenho dentro de mim uma especial preferência por aqueles que moram mais fundo dentro do meu coração. Só isso. Sem desmerecer os demais que não conheço, e acerca dos quais não tenho o direito de ser crítico.
                                           Ainda ontem comentei com Vera Macedo, filha do Vanderley  Policial, que também vive distante do berço amado, a esse respeito. Dizia a ela que em Paranapuã já me senti como o soldado que retornou da guerra, mas não encontrou dois braços abertos, como esperava, Encontrou a noiva casada com outros e cheia de filhos pequenos. Fica sabendo que os irmão morreram na mesma guerra, e que o pai e a mãe morreram de tristeza. O primeiro ímpeto é voltar à guerra e morrer de vez. Depois fica por ali, sem objetivo nenhum na vida, então se torna alcoólatra e acaba morrendo aos poucos. Claro que isso é uma metáfora muito cruel, concebida num momento de tristeza e saudade,  e que a vida não é bem assim. A vida nos oferece sempre uma nova chance, uma nova esperança, e acaba sempre num infindável recomeçar. Felizmente, embora eu conceba a metáfora eu não me visto dela. E tenho encontrado muitos braços abertos, dos meus velhos amigos e de gente nova que estou aprendendo a conhecer.
                                           Por essas, e por outras tantas coisas, não me importa muito se o jardim ainda está lá ou não; se esta ou aquela  rua tem esse ou aquele nome, e a eleição vai ser ganha por A ou B. Dentro de mim as lembranças são vivas, e tenho feito aquilo que mais gosto de fazer: Mostrar para as pessoas um pouquinho do romantismo que construiu a nossa história. E deixar bem claro que tudo e todos ali moram sempre em minha lembrança, e ao lado de Deus, dentro do meu coração de menino.








PARANAPUÃ

Histórico:

O Senhor Paulo Guilherme Ferraz, quando aqui chegou, e não encontrou nenhum dono, retornando ao Rio de Janeiro, onde era a sede do Governo Federal, entrou em contato com o então Presidente Sr. Getulio Vargas, e relatou a ele sobre as terras aqui existentes, cerca de 12.000 alqueires.

Foi publicado então, através do Diário Oficial da época, a localização dessas terras, e como não apareceu nenhum dono para reclama-las, as terras foram a leilão. Então o Sr. Paulo Guilherme Ferraz as adquiriu, mas em troca, o Governo Federal através do Decreto-Lei número 58, exigia a colonização da região, dentro de um prazo de dez anos.

Por Lei, a cidade teria que ter avenidas com vinte metros de largura, e oitenta e um quarteirões, sendo o quarteirão central, a Praça Tiradentes. Contaria com três praças de lazer: a Praça Tiradentes, o campo de Futebol e a do Hospital, hoje Paranapuã Clube.

Foi então contratada uma Companhia: SOBRAC – Sociedade Brasileira de Colonização, que contava com as seguintes pessoas: Dr. Júlio Amaral, Dr. Nozai, Dr. João Camareiro, Sr. Wilson Brito e Sr. Joaquim Squiavon, que lotearam e venderam as terras, cerca de 5.200 alqueires. O restante foi loteado e vendido por Paulo Ferraz.

A madeira para fazer o Cruzeiro, foi retirada em um sítio, córrego do Ingá hoje pertencente ao Sr. Aurélio Lago. Foi transportada por uma junta de bois, conduzidos pelo Sr. João Francisco, e a madeira foi lavrada por Braulino Camargo, na frente da casa de Luís Amadeu.

O Cruzeiro foi erguido no dia 08 de setembro de 1949 ,e dentre as muitas pessoas que ajudaram, podemos citar: o Sr. Emílio Ramyres, Valentim Martins, Benedito Ortiz, Dito Feio, Daniel Vilega, Manoel Trindade, Paulinho Modesto, Família Takaki, Luís Castano, Mário Bueno e outros.

Apesar do Cruzeiro ser erguido no dia de Nossa Senhora Aparecida, para Padroeiro da cidade, foi escolhido São Judas Tadeu, pois a esposa de Paulo G. Ferraz, Dona Luizete era devota deste Santo.

O nome PARANAPUÃ, se deve ao fato das terras serem parecidas com as terras do Estado do Paraná. E por ser pequeno em comparação ao Paraná, foi acrescentado “Puã”, que na língua indígena significa pequeno.

Dentre as primeiras pessoas que aqui residiram podemos citar: Sr. Ângelo Takaki, arrendatário de terras – 1942, Roque Nanchi, arrendatário de terras – 1942, Sr. Emílio Ramyres, arrendatário de terras – 1947, Sr. Luís Amadeu, proprietário de uma máquina de arroz, Sr. Mário Bueno, administrador da Fazenda Lúcia, Sr. Olímpio Batista (construiu a sede da Fazenda de Paulo Ferraz, no Córrego do Caeté, Sr. João Padilha, o primeiro farmacêutico, Família Ribeiro, Sr. João Paixão, Sr. Benedito Ortiz.

Dos primeiros prédios que ainda permanecem até hoje são: um boteco no início da Avenida Ângelo Takaki, hoje uma borracharia, outro boteco do Sr. Mário Bueno em frente à Praça Tiradentes, hoje bar do Lorencete, hoje propriedade do Sr. Manente.

Paranapuã, então povoado na época teve ajuda do município de Jales, através da amizade de Paulo Guilherme Ferraz e Euphly Jalles. Podemos citar que as telhas e a madeira do primeiro Grupo Escolar foram doadas pelo Sr. Euphly Jalles. Esse mesmo Grupo Escolar teve como primeira professora, a Sra. Maria Negrão.

Por divergências políticas Paulo Ferraz e Euphly Jalles, cortaram relações de amizade. Euphly apoiou Dolcinópolis, que logo passou a Distrito e com isso conseguiu se emancipar.

Devido a essa divergência, Paranapuã demorou mais para passar a Distrito, só acontecendo em 18 de fevereiro de 1958, passando então a pertencer ao município de Dolcinópolis, que tinha como Prefeito na época o Sr. José Castanhola.

Paranapuã foi elevado à categoria de Município em 28 de fevereiro de 1964, mas sua instalação ocorreu em 21 de março de 1965.

Elevado à Município, o Sr. José Ribeiro foi o primeiro Prefeito, que com sua morte, assumiu o vice Sr. Luís Reina. A Câmara era composta dos seguintes vereadores: Sr. Dionísio Facinoone, Sr. João Padilha, Sr. Antônio Latorre, Sr. Francisco Rodrigues dos Santos, Sr. Geraldo Porto, Sr. Adelino Bertani, Sr. Dolecindo F. de Moraes, sendo o Presidente da Câmara o Sr. Afonso Carrasco Gimenes.

Dados do IBGE de 1980, citam o número de 5.798 habitantes entre o município e o Distrito de Mesópolis.

Paranapuã possui diversos tipos de pequenos comércios, o município possui atividade agrícola diversificada, predominando a agropecuária.

As avenidas da cidade levam o nome dos familiares do fundador: Dona Luizete, sua esposa, Dona Sinhara e Lúcia, suas filhas, Júlio Amaral, seu genro. Outras avenidas lembram o nome de pessoas mais antigas como o Sr. Ângelo Takaki que muito contribuiu para o desenvolvimento do município,a avenida José Ribeiro leva o nome do primeiro Prefeito, já falecido.

Paranapuã possui 14.500 km² aproximadamente de extensão, com área de 375 km². É ligada a Jales por Rodovia distando 20 km, Santa Albertina 20 km, Mesópolis 18 km, Urânia 20 km, Dolcinópolis 9 km. Dista de São Paulo 604 km e fica a Oeste do Estado..

Obs: A data do marco do Cruzeiro é de 08 de setembro de 1949, dados fornecidos por pessoas antigas, mas consta também de jornais antigos, a data da fundação de 16 de setembro de 1949.

Gentílico:   Paranapuense



GALERIA DE PREFEITOS







                                           OVO E UVA BOA!
                                           CHEGOU O OVEIRO!




                                          Acordamos muito cedo, bem de madrugadinha, por volta das 4:00h da manhã. Era feriado, e a família ia visitar os avós maternos em Símonsem, perto de Votuporanga, como fazia sempre de dois em dois meses. Chovia muito e minha mãe agasalhou as crianças pequenas em acolchoados colocados na traseira do jeep. Eu, o maiorzinho de todos ia ajoelhado atrás dos dois bancos, entre meu pai e minha mãe, observando o difícil início da viagem. Agora eram mais ou menos 5:00 h da manhã.
                                         -Vamos devagar, dizia meu pai, de Fernandópolis em diante é asfalto, e aí a viagem vai ser mais rápida.
                                         Quando descemos a primeira baixada, fora da cidade, passamos por uma carroça que havia encostado no barranco para dar passagem ao jeep. Estava bem carregada, coberta por uma lona, e à frente, na rédea ia um homem magro, encolhido debaixo de uma capa de chuva. A curiosidade de menino foi aguçada pelo encontro inesperado.
                                         - Pai, quem é esse maluco andando com uma chuva dessas?
                                         -É o oveiro, Sr. Sílvio Beguelini, coitado, já na labuta, tão cedo...
                                         -Más hoje é feriado!
                                         -Meu filho, na roça não tem muito disso não. E além disso ele tem as linhas a percorrer, uma para cada dia da semana. Se tem um feriado e ele fica em casa, aquela linha fica sem a passagem do oveiro naquela semana.
                                          Ao longo da viagem, a cada dificuldade, a cada derrapada do jeep eu não conseguia tirar da cabeça a imagem daquele homem encolhido debaixo da lona em cima da carroça. E só agora, ruminando velhas lembranças entendo por inteiro a grandeza dessas pequenas pessoas, que trabalham na calada da madrugada, que desafiam o frio,  a chuva e os atoleiros para o conforto daqueles que esperam a sua visita. Não, o Silvio Oveiro não podia ficar debaixo das cobertas bem quentinhas, não podia levantar mais tarde e saborear preguiçosamente o café com pão. Era o compromisso da profissão, e o compromisso do homem com ela. As mulheres da roça não podiam ficar com as cestas cheias de ovos, com os franguinhos correndo pelo terreiro, e menos ainda sem as pequenas coisas com as quais trocariam esses bens. O Silvio colhia os ovos das sitiantes, os frangos, os pombinhos, os leitões, alguma fruta, mel, doces caseiros, e em troca deixava um corte de tecido, lenços para a cabeça, pequenos utensílios de cozinha, armarinhos dos mais variados, desde zíper e botões, até sinhaninhas e fitas de seda. Às vezes deixava esparadrapo, modess, comprimidos para vários males, de efervescentes até remédios para diarréia ou enxaqueca. As moças o esperavam para terem um novo vidro de pefurme, um novo esmalte, batom, pó de arroz, pulseiras e adereços para o cabelo. As crianças corriam atrás da carroça gritando por um brinquedo novo; os rapazes sempre precisavam de uma bola para o futebol, de graxa para os sapatos, carteiras, arame para as gaiolas, botinas para o trabalho, etc. Ah! E os mais velhos esperavam o oveiro para comprarem o fuminho de corda, o canivete, o chapéu de palha, linhas de pesca, anzóis, chumbo para os cartuchos da 32, e até aquela cachacinha gostosa que vinha num garrafão lá na traseira da carroça.
                                     Enfim, quando a carroça parava diante da casa no sítio todos se acercavam dela, e todos sorviam um pouco da comodidade que o Oveiro os proporcionava à porta de suas casas, sem se darem conta da longa madrugada com muita chuva e dos infindáveis atoleiros do caminho.
                                     O Silvio Oveiro era vizinho de nossa casa, morador da mesma rua, e eu, menino, amigo de seu filho Maurício Beguelini frequentava todos os dias a sua casa, sem nunca me dar conta da luta e da bravura desse homem diante de tantas dificuldades, que se multiplicaram depois em sua vida. Mas isso já vai ser uma outra história...













                                        QUANDO SETEMBRO CHEGAR...



                                        Eu quero estar junto a ti... Que magia nos trás o começo de setembro! Parece o renascer de uma esperança... Uma nova promessa... Um começar de novo... E na verdade tudo isso acontece mesmo; em setembro o ano parece começar outra vez, muito mais bonito, muito mais florido, muito mais verde, muito mais... muito mais...
                                        Setembro enterra o mau agouro do mês de Agosto, das doenças respiratórias, do ácaro e do carrapato, do mês do cachorro louco, dos ventos secos e impiedosos que varrem tudo, se dando apenas ao trabalho de mudar a sujeira de lugar, e geralmente para dentro dos nossos quintais, da saudade da chuvarada, que lava a terra ressequida e a alma abatida... Setembro, mês das flores, mês dos amores...
Nem o fato de ter duas luas cheias dentro do mesmo mês, pode tornar mais bonito o mês de agosto. Dizem que a segunda lua cheia é azul... Ontem olhei muito pra ela e não vi sequer uma manchinha azul. Era a mesma lua brilhante, inquisidora e bisbilhoteira, como querendo fechar o mês com mais uma denúncia desvairada,  um uivo de lobisomem ou de cachorro louco.
                                        Hoje eu não duvido que a lua apareça brilhante e azul, nos convidando a seguir trilhas que ela certamente há de iluminar. Afinal é setembro, portal da primavera, os ipês continuam repletos de flores agora muito mais bonitas, e daqui a pouco vai chover e o mundo vai ficar inteiro florido e alegre. A enxurrada certamente vai lavar as ruas de nossos coraçoes; levará pro rio os velhos rancores, as velhas mágoas, os velhos tabus e contradições. E aquela pequena sementinha chamada esperança,  enterrada na terra antes ressequida e estéril, brotará, e esse imenso jardim terá mais uma linda flor.
                                        Afinal, é setembro...







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                                       QUE SAUDADE DA PROFESSORINHA...



                                       Professores sempre deixam saudade... Jamais esqueci da dona Cynira, minha primeira professora... nem de tantos outros (as) que vieram depois dela, e que cada qual ao seu modo deixou um pouquinho da bagagem que carreguei dentro de mim pelo resto da vida. E assim foi com todos nós, principalmente porque nossa cidade era pequenina, quase do tamanho de nossos corações de crianças, e os professores geralmente eram conhecidos e amigos de nossas famílias, por isso se esmeravam cada vez mais em nos proporcionar não só o ensino, mas também toda a dedicação e carinho possíveis. Geralmente os filhos desses mesmos professores eram nossos colegas de classe e amigos de infância.
                                       Até que chegou o Colégio Comercial de Paranapuã; nossa primeira escola de segundo grau, correspondente ao curso colegial, que só era ministrado em Jales. Então a relação dos alunos com os professores, se tornou algo ainda mais profundo, e muito mais prazeroso. Agora eles eram nossos professores, mas antes disso já eram nossos grandes amigos.
                                       O professor Oswaldo Martines Pelegrino, diretor e dono da escola, não era de nosso meio, mas a sua esposa dona Vitória, também professora, era vizinha da casa de minha família desde a minha infância, embora até então jamais houvesse me dado aula. O secretário da escola Ângelo Sanches Don, era meu colega dos joguinhos de bola, tio de minha futura esposa, e filho de meus padrinhos de batismo, Cristóvão Sanches e Tereza Sanches Don.
                                       Então vamos aos professores propriamente ditos: O José Bernardes (Zezinho Policia), era policial militar; tornou-se nosso mestre de Matemática. Valdomiro Rosa, o Miro Alfaiate, (obrigado por ter confeccionado o meu terno de casamento...), como o codinome revela era alfaiate (mais tarde foi funcionário do INSS), e tornou-se  professor de Mecanografia  (grandes mistérios da máquina de escrever), e de Organização Social e Política Brasileira.  Desde criança eu conhecia a Lidia na Casa Matos, filha do Sr. João e Dna Maria. Do balcão de atendimento passou a nossa professora de Português. Foi uma grande incentivadora para que eu não deixasse de escrever as minhas histórias. Alguns acredito que já eram professores, como era o caso do Ademar Crem, da Neusinha Takaki e dona Massako; mas certamente não eram professores de segundo grau. Permitam-me contar uma pequena história que ilustra bem o quanto esses mestres nos conheciam. De certa feita a Lídia nos passou um trabalho: a leitura e o resumo do romance O Forte, de Adonias Filho. Fiz o trabalho e levei à escola datilografado, sem o meu nome. Na escola a Fatinha, filha do Sr. Antonio Açougueiro, estava desesperada, precisando de nota e sem haver providenciado o trabalho. A minha situação era cômoda, e não precisava de pontos extras, então dei o trabalho a ela, que displicentemente o entregou à professora sem colocar o seu nome. Quando foram divulgadas as notas, a minha era dez, e a da coitada da Fatinha era zero. Ficamos sem entender nada, então indaguei a prof. Lídia. Porque me deu dez? Resposta: Ah! Você esqueceu que colocar o seu nome no trabalho. Mas eu sei que é seu. É inconfundível. Nada mais pudemos argumentar, e as notas ficaram assim mesmo.
                                        O mais interessante nessa história toda, e que nenhum desses personagens tinham qualificação profissional apropriada para o cargo docente que ocupavam. Mas o esmero com que se dedicaram, e a vontade com a qual se atiraram a esse grande desafio fez deles grandes professores, deixando muita coisa boa para que os alunos se aproveitassem.
Tal qual no caso do Licinho, Ulisses Costa, que sem diploma sempre foi um grande dentista e excelente protético, ou de nossos farmacêuticos que também jamais foram diplomados e eram verdadeiros “médicos” para os moradores, também nossos mestres e professores de fato, fizeram igual ou melhor que os maiores profissionais do ensino.
                                         Que pena que durou tão pouco o Colégio Comercial... mas se procurarmos em Paranapuã vamos encontrar muita gente que teve seu caminho e seu sucesso aberto pelo diploma de Técnico em Contabilidade.
                                          Depois disso estudei em outras escolas; fui para a Faculdade, e tive muitos excelentes professores, mas nenhum deles deixou tanta saudade dentro de meu coração.






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                                                  JOSÉ FERREIRA DO CARMO



                                                  Que força poderá conduzir a bom termo os nossos sonhos? Quem poderá nos guiar pelo caminho das nossas ilusões? O que nos garantirá o dia de amanhã? E que milagre tomará conta de nossas pobres vidas, tornando-as mais felizes?
                                                  É uma infinidade de indagações que nos perturbam a mente sempre que tentamos decifrar o encanto da vida e o enigma da morte.
                                                  Porque ela abraçou primeiro aquele que estava ao nosso lado? Qual o critério de escolha, que separa quem vai e quem fica? Porque às vezes deixamos a calma e a serenidade da família e do lar para abraçarmos a tragédia?
                                                  Tantos daqueles nossos amigos de infância já fizeram prematuramente essa travessia rumo ao reino do desconhecido e do invisível... Rumo ao infinito e ao inexplicável descaso do infortúnio com as suas vidas...
                                                   Havia iniciado esse texto a fim de falar de algum de meus amigos que já se foi, quando recebi a notícia do final da jornada do nosso amigo e ex-prefeito José Ferreira do Carmo. Uma perda e tanto para os paranapuãenses, diante do significado desse personagem na política da cidade.
                                                   Há muito não via o amigo, ex-prefeito, entretanto na última vez que o vi, já estava bastante mal, muito abatido e caminhando com muita dificuldade, não obstante esse distanciamento nos últimos tempos, ele foi figura muito importante durante minha juventude em Paranapuã.
                                                   A primeira vez que presenciei uma campanha política foi quando elegemos nosso primeiro prefeito, José Ribeiro. Mas era muito menino e não entendia os fatos do lado político com muita clareza, mas a tragédia de sua morte prematura parece ter me despertado um certo interesse pela política local.  Depois quando foi eleito o Licinho, já era mais grandinho e podia entender melhor os acontecimentos. Fiquei feliz com a sua vitória. Então veio a primeira campanha do José Ferreira do Carmo e se estabeleceu um paradoxo dentro do meu jovem coração. Se por um lado não gostava da ditadura militar, e do exagero de civismo que me impunham, por outro lado gostava do candidato da Arena, que era mais popular, mais amigo, e mais participativo que o candidato do MDB. Felizmente àquela altura dos acontecimentos não interessava ao povo nenhum tipo de ideologia política, e ninguém queria saber se o candidato era alinhado à direita ou esquerda, se apoiava os ditadores ou se apregoavam a democracia. O que o povo queria e precisava era de alguém que cuidasse de seus interesses, que lhes trouxesse comodidades e benefícios que os antecedentes, diante das dificuldades não puderam lhes proporcionar. (Que bom que outros que os sucederam puderam trazer tantas coisas boas para nossos amigos e irmãos).  Nisso o Zé caiu como uma luva. Era amigo das pessoas e interessado em proporcionar-lhes uma vida melhor. E diante dos poucos recursos que eram oferecidos na época aos municípios, e das enormes carências existentes, fez o melhor que pode e deu o melhor de si. A cada um dos munícipes deixou um legado de trabalho e competência, que alguns anos depois o levaram a um novo mandato. Era a aprovação dada por quem o político mais trabalha e dele se faz dependente: o povo.
                                                   Que pena que você se foi José Ferreira, perdemos mais um prefeito, e um grande amigo.















                                                 O GINÁSIO E O TIZIU



                                                 A escola de primeiro grau não era composta de oito anos, como atualmente. Os primeiros quatro anos eram o período do Grupo Escolar, e os quatro seguintes eram o Curso Ginasial. E tem mais: A transição entre um e outro não era automática. Era preciso o aluno comparecer a um curso que era chamado Curso de Admissão, com um exame bem rigoroso no final do período de seis meses. Só após essa aprovação era matriculado no curso ginasial.
                                                 Fiz parte da primeira turma do Ginásio de Paranapuã; mas por algum motivo talvez de regulamentação do curso, ali não se prestava o exame de admissão. Então os alunos que estavam terminando o quarto ano tiveram que procurar outras escolas nas cidades vizinhas para se submeterem ao tal exame. Alguns foram fazer em Dolcinópolis, outros em Urânia, outros em Jales, e eu, não sei exatamente porque fiquei com um grupo que foi para Populina. Não foi nada fácil. Para complicar as coisas, chovia muito, e tivemos que contratar o Sr. Paulo Watanabe que nos levou a bordo de sua Rural Willys ano 1967, novinha em folha, que retornou numa sujeira deplorável.  Mas o pior estava por vir. A matéria lecionada aos alunos de Populina não era a mesma que estudamos em nosso curso de admissão. Resultado: Os seis alunos de Paranapuã foram reprovados.
                                                 Felizmente a pedido de nossos professores, a Escola do Prof. Soller em Jales abriu uma exceção e nos submeteu ao exame em uma outra data. Dessa vez passamos ao Ginásio.
                                                 Mas esse não é certamente o objetivo dessas lembranças. Queria aqui recordar alguns dos professores daquele pequeno ginásio, o primeiro em Paranapuã. Quase todos residentes em Jales, vinham diariamente a fim de nos lecionar. A começar pelo prof. Dias, de Educação Física, sempre alegre e disposto brincando com a criançada. Nas salas de aula, as duas Luzias, uma Pedrosa, a outra Nicoletti. Dona Lavinia, Maria Eliza professora de ciências (que polêmica, quando dissecou um sapo diante a criançada...), Dona Eloísa, Prof. Cristóvão, grande mestre em história, Dona Massako, dona Vitória, e tantos outros que nossa mente insiste em ocultar na lembrança.
                                                  De certa feita um desses professores me transmitiu um estranho recado:
                                                  - O Diretor da Escola, Sr. Camargo, está lhe chamando na diretoria. Quase caí da cadeira. Ir para a diretoria significava uma coisa terrível, uma bronca sem tamanho,
às vezes até mesmo uma suspensão... Entrei num estado de pânico total, nem sentia o chão e entrei na sala sem conseguir falar, suando e tremendo muito. O diretor ao perceber meu estado de desespero, tratou de me acalmar me fazendo sentar.
                                                  Fiquei sabendo que você gosta de caçar passarinhos, é verdade? Queria lhe pedir um favor. Queria que pegasse para mim um desses tizius, bem pretinho, pra eu colocar em meu viveiro.
                                                  Ai que alívio! No dia seguinte vim à escola com uma pequena gaiola com três tiziuzinhos, bem pretinhos.













                                                 JAYNE


                                                 Em Paranapuã eu acredito que todos se orgulham da nossa cantora. E não é absolutamente nada gratuito esse orgulho das pessoas, principalmente daquelas que acompanharam a sua carreira. Ela sempre fez por merecer até muito mais do que conquistou com a voz maravilhosa. E sempre esbanjou simpatia e carinho com o seu povo. Jayne sempre fez questão de dizer nos programas de televisão que era filha de Paranapuã. Isso mesmo. Paranapuã. Jayne nunca foi de Jales, ou da região de SJRPreto.
                                                 Eu faço parte dessa imensidão de fãs que ela conquistou. E tenho orgulho de haver presenciado seu inicio de carreira, cantando nas festinhas, nas escolas, nas comemorações e (que saudade!) no Alfredo Show. Uma brincadeira impagável do dono do cinema e do serviço de alto falante, talvez um dos grandes artistas que o destino nunca revelou em nossa pequena cidade. Alfredo era cineasta, muito bom violeiro, cantor, ator, e até mecânico de calhambeques. Mas o maior orgulho que carregava consigo se chamava Jayne. Bem, mas a respeito do Alfredo vamos falar noutra ocasião.
                                                Provavelmente a Jayne nunca me viu dentro do velho ônibus que foi batizado pelos estudantes com o sugestivo nome de “Caiau”, onde era sempre cercada por todos na viagem rumo ao Colégio Euphly Jales, e onde sempre aparecia um violão e se instalava a cantoria. Nessa época eu era só um pobre menino tímido, que jamais se aproximaria da cantoria e da festa que reinava dentro do “Caiau”.
                                               A vida me cobrou logo bruscas mudanças, e deixei Paranapuã antes da Jayne se tornar uma grande cantora. Mas à distância sempre acompanhei a sua carreira. Comprei todos os discos, consegui com os colegas de Paranapuã os seus posters autografados, que enfeitaram por muitos anos a minha pequena salinha de som. O Alfredo Trindade me presenteou em certa ocasião com uma fita de vídeo, onde haviam diversos clipes de nossa cantora, inclusive a linda canção do Zé Ferreira de Urânia, “Filha de Carreiro”. Que saudade disso tudo!
                                              Certamente não estou só nessa tietagem. Hoje sei da imensidão de admiradores que essa filha de nossa terra conquistou. Tanta gente por esse Brasil afora ouviu as suas canções e se emocionou com sua voz maravilhosa. Mas aquelas cantorias dentro do “Caiau” vão ficar para sempre na minha lembrança.









                                                HOJE É DIA DE DESFILE!


                                                Muita gente pode achar que é puro saudosismo, que a gente não aceita os métodos modernos de ensino, e por isso ficamos com o pé fincado no passado, como se tivesse sido muito melhor... Muito gente pode pensar assim, e estão certos. Eu também acho. Como não ter saudade daquilo que foi bom? Como esquecer a primeira professora, e os primeiros passos na pequena escolinha que tinha a missão de nos fazer “cidadãos”?
                                                Quando eu entrei na escola em Paranapuã em 1963, a professora era da dona Cynira, esposa do Victor Ferreira Vítollo, então escrivão do cartório. A escola era uma sala só, com quatro fileiras de carteiras. Em cada fileira ficavam alunos de um dos quatro primeiros anos. Não tinha diretor, que às vezes vinha de Dolcinópolis, e ao qual temíamos demais. Todos os dias bem cedinho, antes de adentrarmos ao pequeno “grupinho”, dona Cynira colocava a criançada enfileirada em quatro fileiras diante da porta, onde cantávamos o Hino Nacional, em posição absolutamente respeitosa. Depois os alunos aumentaram em foram construídas quatro novas salas em um prédio novo. Agora sim, tínhamos diretor, auxiliares, etc. Mas o respeito continuava o mesmo. Todos de pé quando a professora, ou qualquer autoridade entrasse na sala. O Diogo Ramirez era nosso servente, e todos levantavam quando ele por algum motivo vinha à nossa classe. Nas aulas de música, aprendíamos a cantar todos os hinos de nossa Pátria, e nas de desenho, eram desenhados todos os Símbolos Nacionais, com esmero e cuidado.
                                                Mas as verdadeiras festas de civismo e patriotismo aconteciam nas datas comemorativas, como República, Tiradentes e Independência, quando aconteciam os desfiles ao longo da Avenida Ângelo Takaki. A criançada ia bem cedo à escola, todos com seus uniformes impecáveis, onde cada um recebia sua bandeirinha, depois desciam acompanhados da professora, pelas ruas laterais até defronte a casa do Prefeito José Ribeiro, onde o desfile era organizado. Então começava a se movimentar avenida acima ao som da fanfarra (a fanfarra... onde andam as fanfarras? Sabe, eu até tenho visto algumas por aí, mas nada que se compare àquelas nossas fanfarras...). Então cada classe em fila com a professora diante dos alunos, seguia garbosa, misturando-se a alunos vestidos a caráter, de Tiradentes ou de D. Pedro I, às vezes encenando a Independência ou a Libertação dos Escravos. Lá em cima, na praça, todos se enfileiravam diante do palanque. Então a fanfarra parava de tocar e nossas autoridades faziam seus discursos.
                                                Hoje parece piegas e ultrapassado esse cenário, mas era um tempo em que as crianças realmente passavam de ano, e como nos sentíamos importantes desfilando pela rua sem calçadas nem asfalto! Ali não tinha desrespeito aos colegas, nem aos mestres, nem aos trabalhadores na educação. Ali não tinha promiscuidade. Ali não tinha rap, nem funk. Nem drogas. 







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                                                    ALTO FALANTE!


                                                   “E ao som desse prefixo musical, entra no ar o Serviço de Alto Falante O Cacique do Ar. Uma organização para melhor lhe informar. Órgão independente, trabalhando exclusivamente para o engrandecimento de nossa cidade.  Quem tem o prazer de cumprimenta-los é o locutor Diorandi Trindade”
                                                     Eram precisamente 19:00 horas, a mesma hora que entrava no rádio A Voz do Brasil, e o som do auto falante colocado em cima do cinema enchia o ar da pequena cidade, e ia até às21:00, ou até a hora de começar o filme no cinema. Por ali deixaram suas vozes, vários locutores: Alfredo Trindade, Diorande Trindade, Nelito, Célio Trindade e até o Brucutu emprestou sua voz aos ouvidos atentos dos enamorados. Ah! Saudade! Quanta música bonita eu ouvi através do cone mágico do alto falante!
                                                     Foi ali que eu aprendi a ouvir música. Quando era menino, a cidade era mais silenciosa, então o som era mais nítido e era bem fácil ouvir de dentro de casa o que era divulgado. Como eu gostava das músicas da Jovem Guarda, do Nelson Gonçalves, do Altemar Dutra, Moacyr Franco e Roberto Carlos, entre tantos outros. Então, junto com os primeiros namoros, os primeiros amores e as primeiras feridas,  veio a época da música mais romântica, que acompanhávamos pelo programa do Barros de Alencar, eram as baladas de Nilton César, Márcio Greyck, Agnaldo Timóteo, e muito mais. Depois o brotar dessa música sertaneja mais jovem, e o ar se enchia de Matogrosso e Mathias, João Mineiro e Marciano, Milionário e José Rico...
                                                    Os grupinhos de jovens passeavam num contínuo vai e vem, desde a porta do cinema, até o final da praça, lá na Avenida Luizete, com o trânsito desviado da rua principal para a prática do futting. Os ouvidos sempre atentos ao auto falante, pois a qualquer momento alguém poderia lhe oferecer um brinde musical. Eram coisas do tipo -“E agora vamos executar Eu não sou cachorro não, com Valdick Soriano, que um alguém... de camisa preta e calça cinza, oferece para um alguém... de vestido rosa e de sandálias pretas.”
                                                    Além disso o alto falante fazia anúncios do comércio local e regional, e tinha o serviço de utilidade pública, anunciando eventos nas escolas, serviços sociais, achados e perdidos, e até velórios.
                                           Mas o que me deixou mesmo
bastante saudade foram os recados que se enviavam através das músicas, principalmente aqueles que os jovens, quase sempre tímidos, não conseguem expressar frente a frente. Quanta incerteza no momento de escolher a música certa, que era então portadora de sentimentos e segredos ainda não revelados. Quanto namoro começou ali. Quanta alegria quando aquela pessoa especial lhe oferecia uma música, e também quantos desencontros, quantas tristezas... quantas separações.
Quanta coisa, quanto tempo...
                                                   Era o serviço de alto falante, O Cacique do Ar. 






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                                       AI QUE MEDO DE INJEÇÃO!


                                      A criançada por ali tinha verdadeiro pavor a três coisas: Primeiro, cachorro louco, segundo, o velho do saco, e o terceiro maior temor era a agulha de injeção. Até hoje tenho impregnado em minhas narinas aquele cheiro de mertiolate que se espalhava na salinha onde se aplicava injeções.
E o medo não era sem uma certa razão; alguém sabe o quanto dói uma injeção de benzetacil aplicada no bumbum?
                                       Por isso eu saia correndo e me escondia quando o Izael Ribeiro descia pela avenida afora, e olhem que o Izael nem era farmacêutico, mas apenas um atendente na farmácia do João Padilha que era compadre de meu pai, nem sei porque.
                                       Para maior desespero da criançada naquela pequena Paranapuã existiam três farmácias na década de 60. A do Dionizio Fachinconi, a do Pedro Ortiz, e a do João Padilha.  Eu, junto com meus irmãos menores abrimos inúmeros berreiros em todas elas quando de vez em quando, devido a resfriados e gripes generalizados, meu pai resolvia levar todos para uma injeçãozinha básica. Não existiam seringas e muito menos agulhas descartáveis. Umas e outras eram desinfetadas num pequeno recipiente com água quente e reutilizadas inúmeras vezes, não sendo nada raro a agulha entupir na hora da utilização.
Então o remédio era uma nova agulhada. Certa vez levei quatro furos seguidos devido às agulhas entupidas. Chorei umas três horas sem parar.
                                       Mas à parte do pavor da criançada diante da seringa, vamos a aspectos mais relevantes da situação. Naquela época não existiam Postos de Saúde, e qualquer consulta médica tinha que ser feita em Jales, quase sempre mediante a um polpudo pagamento. A população era pobre e carente, mas felizmente contavam com três excelentes  “médicos” em Paranapuã. Os três farmacêuticos não tinham diplomas de médicos pendurados na parede, mas tinham a experiência do contato com essas pessoas tão necessitadas de atendimento. Tinham boa vontade e amor ao próximo,  e exerciam a “medicina” com tanta dedicação e esmero que jamais deixavam ninguém à mingua, como fazem hoje os grandes hospitais. Nunca vi o Pedro Ortiz, o Dionizio ou o João Padilha recusarem o atendimento a uma pessoa doente em qualquer circunstância. Algumas vezes, eu menino, bati em suas portas durante a madrugada a fim de socorrem a minha mãe que estava mal, grávida de meus irmãos mais jovens, ou ao meu pai que se contorcia com mais uma cólica renal, e sempre encontrei disposição e comprometimento deles com a profissão que abraçaram.
                                       Quem nos dera vermos hoje nos hospitais maiores, melhores equipados e com profissionais muito bem qualificados, o mesmo amor ao próximo, a mesma dedicação e o mesmo comprometimento com a profissão e com o ser humano.
                                        Nem nos lembraríamos das dorzinhas das injeções...






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                                            MEUS CAROS AMIGOS

                                            Muitas coisas povoaram a minha infância em Paranapuã. Como as crianças eram inocentes naquela época. Tinham pavor de cachorro louco, e acreditavam em Papai Noel, em mula sem cabeça e até mesmo no homem do saco ( que trazia um saco nas costas e raptava as crianças desobedientes). Quantas noites eu perdi o sono com medo de saci-pererê, do fim do mundo e de cachorro louco... Hoje as coisas são diferentes e a criançada anda muito esperta e destemida.
                                           Mas o que me causa mais espanto hoje é me lembrar da pobreza que havia por aqui naquela época. Eu era meio menino de rua, e às vezes perambulava pelas ruas mais afastadas da praça e das avenidas principais ( que só eram duas ), e convivia um pouco com aquelas crianças muito pobres, muito carentes de tudo e muito medrosas. Em suas casas tudo faltava, a começar pela própria família; filhos de pais analfabetos e sem maiores perspectivas de qualquer conquista. Essas pobres crianças sofriam (sem saber do que se tratava) o bullying a partir de dentro de seus próprios lares, depois na rua, e na escola eram quase sempre humilhadas. (O que eram confundido às vezes com humildade. Não, não, era humilhação mesmo).  Quantas vezes acompanhava os coleguinhas até a boiadeira onde residiam, e testemunhava a pobreza das camas onde dormiam, a ausência de qualquer móvel ou utensilio de valor dentro das casinhas de pau a pique, e a falta de comida nas panelas sujas e amassadas.  Os irmãozinhos mais pequeninos ficavam nus, porque não tinham roupas, e quantos morreram de "barriga dágua", "nó na tripa" ou "mal de sete dias", sem tomarem sequer um copo de água com sal e açucar, tal era o desconhecimento das mães. 
                                      Hoje, não sou mais aquela criança. E graças a Deus aquelas crianças que eram meus colegas de infância também desapareceram. Às vezes passeio por essas mesmas ruas, e só encontro casas em alvenaria ( às vezes humildes, mas dignas ), as pessoas tem trabalho e as crianças andam vestidas, vão à escola, onde são bem tratadas e felizmente... comem...
                                     Mas o que me causa ainda mais espanto é quando me contam sobre aqueles velhos coleguinhas que sobreviveram. Então vislumbro os milagres que o ser humano é capaz de  produzir. Agora eles mesmos ou seus filhos são professores, policiais, bancários, médicos, advogados, proprietários de terras ou comércio, enfim... Quanta gente venceu na vida apesar da míséria. Apesar da fome. Apesar dos maus políticos. Apesar de tudo... Quanta gente.
                                      Abraço cada um  de vocês, meus velhos amigos. Obrigado por me darem esse presente.




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                               O JAPONES E O ESPANHOL


                               Durante a década de 70, quando vivíamos a euforia do tri campeonato mundial conquistado no México, e tínhamos uma avalanche de patriotismo sob o slogan divulgado ostensivamente por Médici, “Brasil, Ame-o ou deixe-o”, as coisas pelo lado da lavoura não andavam muito bem, e cada vez mais as pessoas deixavam suas pequenas propriedades para se radicarem nas cidades, submetendo-se a sub empregos, e suas famílias a degradações e miséria.
                              A principal causa disso foi a falta de incentivo à lavoura familiar de subsistência. Por aqui não se plantava mais feijão, havia pouco algodão e milho, e o arroz, prato principal no sustento das famílias, passou a ser trazido do sul, com melhor qualidade e a preços muito compatíveis.
                              O desinteresse dos agricultores pelo cultivo do arroz trouxe efeitos secundários que passaram quase despercebidos diante dos nossos olhos. Um deles foi o fim de quase todas as máquinas de benefício aqui existentes.
                              O vô Marcello Duran era proprietário de uma delas, e agora quase não tinha mais o que fazer. Então colocava sua cadeira diante da porta principal a ali ficava acabrunhado e entristecido, cumprimentando um outro e batendo pequenos papos com os amigos do lugar. Era imigrante espanhol, e falava um “portunhol” às vezes de difícil assimilação.
                              Lá na Barra Bonita residia um imigrante japonês, pai da Mitiã, com o qual só os japoneses conseguiam se comunicar bem. Estava sempre alegre e sorrindo, e às vezes subindo pela Avenida Ângelo Takaki parava diante da máquina para bater papo com o vô Marcello. O velhinho falava um pouco em japonês e disparava um riso descontraído e muito alegre; então o vô Marcello ria com ele. Depois o vô Marcello falava alguma coisa em espanhol e ficava olhando para o japonês, que sem entender nada, ria outra vez, assintosamente. Então os dois gargalhavam muito juntos. Passavam assim dez ou quinze minutos de muita alegria sem que nenhum entendesse nada do que o outro dizia.
                             Quando finalmente o japonês se despedia e seguia rindo muito ao longo da Avenida,  deixava no semblante do vô Marcello sinais de alegria e descontração muito evidentes.
                             Que grande resultado para um diálogo tão belo! 


   



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                                         ZÉ NANCHI




                                         Eu era muito menino; isso por volta de 1965; quando meu pai adquiriu uma pequena chácara lá embaixo na Av. Lúcia, antes da boiadeira. Naquele tempo a chácara ficava longe da cidade, que só era ocupada nas duas avenidas principais, o resto eram pequenas propriedades. Na chácara meu pai implantou uma criação de porcos, com dois enormes barracões, e os espaços muito bem divididos para as porcas  criadeiras e a leitoada. Era um trabalhão danado cuidar daquela porcada toda.
                                        Nessa época o Neno Nanchi, tinha ido com a família para Mato Grosso a fim de trabalhar com o Tio Migué, mas a família não havia se adaptado às dificuldades da roça, e meu pai que nutria grande amizade pelo Neno, tratou de traze-los de volta e o empregou na chácara a fim de cuidar da porcada. Improvisou uma pequena casa, agregada ao barracão e para lá veio a família Nanchi.
                                      Na minha casa eram cinco crianças (Valter, Valdeir, Maria Lúcia, Daniel e Natanael, recem nascido), e lá eram mais cinco (José, Marli, Marlene, Marlei e Marlete). Difícil hoje é explicar o que essa criançada toda aprontava dentro daqueles chiqueiros... Eu, meu irmão Valdeir e o Zé, éramos mais grandinhos, e à tardinha íamos “ajudar” o Neno no preparo da “refeição” para os suínos. Existia um grande tanque, de cerca de 1.500 litros, onde se colocava água e se despejava 3 sacos de farelo de arroz, então entrávamos os três no tanque sob o pretexto de misturar os ingredientes, de onde saíamos irreconhecíveis. Então o Neno cheio de calma e bondade esguichava água na gente para tirar o farelo do corpo. Era uma festa.
                                       Depois o Zé, cresceu um pouquinho mais e foi trabalhar no armazém lá em cima (não sei se ainda era Casa Matos, ou se já era Casa Lacerda), ocupando o lugar deixado pelo Zico Lopes, que deixava o emprego para abrir seu próprio negócio.
                                       As brincadeiras na chácara diminuíram, mas quanta coisa boa continuou a acontecer. Às vezes eu ia até o armazém e me admirava com o jeito do Zé trabalhar, sempre gentil, cortês, desembaraçado e alegre.
                                       Anos depois fui embora de Paranapuã a fim de trabalhar, mas em todas as visitas à minha cidade sempre fiz absoluta questão de visitar o Zé Nanchi, às vezes até rapidamente à beira do balcão, mas quanta coisa boa continuei saboreando. Ver meu amigo sempre disposto, progredindo, deixando no passado o menino pobre, e trazendo sempre para junto de nós o menino alegre que sempre foi.
                                       Saudade, meu amigo, Zé Nanchi.




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